sexta-feira, 27 de junho de 2014

180 graus


Fiz as pazes com Deus. E comigo mesma. A vida não é mesmo para iniciantes. Depois de uma confissão pública de que havia brigado com Deus, preciso dizer que agora, sim, passei a entender o idioma divino.
A vida andava sem sentido. Muitas perguntas, e nada de respostas de volta. Até que comecei a perceber que deveria estar olhando para o lado errado, ou que enxergava por lentes erradas. Precisava refrescar a minha visão sobre tudo.
Subitamente desperta em mim um interesse que até então não exista, comecei a me pegar  lendo a Bíblia, e a esbarrar em pessoas que tinham mensagens para mim, que me fizeram entender um pouco mais daquele momento de tantas dúvidas.
Pensei: vou testar se rezar realmente funciona, e todos os dias vou fazer minha prece, e não vou mais pedir que isso ou aquilo seja entregue a mim, vou pedir que me venha o que deve vir, e que eu saiba aceitar a encomenda. Do que preciso, agora, é de mais compreensão e menos julgamento. E assim, devagarinho, mas de forma constante, a vida passou a fazer algum sentido.
As lentes foram desfocadas e eu comecei a enxergar o óbvio: como sou uma pessoa agraciada por tantas conquistas, conquistas que eram embaçadas por um foco desmedido naquilo que eu não tinha e gostaria de ter. Foco embaçado também pela presença de pessoas que sugavam, o meu tempo, a minha energia e tudo mais que vinha junto, e que começaram- magicamente- a se afastar do meu caminho, assim como outras se aproximaram, as que de fato faziam a diferença.
Os pequenos rituais sagrados e rotineiros ganharam uma importância que nunca tiveram, e percebi que não há nada de pote de ouro no fundo do arco-íris, a grande felicidade está aqui e agora, e não mais no que não consigo.
É simples, mas complicado ao mesmo tempo, porque exige um constante exercício de proximidade e distanciamento, de experiência e análise, e de quebra, total e sem volta, de crenças que limitavam o meu olhar sobre o mundo.
É uma mudança e tanto, e começo a perceber que é um movimento coletivo, uma nova lua, um paradigma que está sendo quebrado. Menos é mais, mais tempo vale mais que dinheiro, mais silêncio em lugar de mais barulho. E vamos, de pouco em pouco, seguindo por caminhos nunca antes navegados. É algo revolucionário o que estamos vivendo, mas absolutamente solitário, porque é uma mudança orgânica, e interna, que mexe primeiro em nós para depois alcançar o outro. 
A relação dos homens com as mulheres, dos pais com os filhos, do Estado com os cidadãos e vice versa, dos homens com Deus, tudo vem mudando nos últimos tempos. Encontramo-nos perdidos em algum ponto desta nova onda  de energia que tem modificado todas as nossas relações.
Consegui, a muito custo, encontrar meu avatar neste matrix que está se instalando.
Para quem ainda não acordou, e não percebeu o que estamos vivendo, só tenho a dizer : ‘wake up, Neo”.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Síndrome da criança malcriada


Tenho reparado que a simpatia, que sempre foi o cartão postal do povo Brasileiro, ao menos por aqui, nas minhas bandas é uma qualidade quase folclórica, longe a beça da realidade.

Li recentemente, mais instigada pela curiosidade do que pelo despeito, as razões que fizeram um norte-americano odiar morar no Brasil, e concordo com grande parte de suas observações, em especial aquela que diz que somos muito queridos com os conhecidos, embora extremamente rudes com quem não faz parte do “cercadinho vip” do nosso afeto. Há quem discorde por pura repulsa à inevitável carapuça, mas que é verdade, isso é.

Eu chamaria de síndrome da criança malcriada. Tal como quando chamamos a atenção ou repreendemos uma criança, as pessoas, atualmente, quando criticadas, sobretudo se flagradas fazendo algo errado publicamente reagem com uma selvageria inacreditável, incapazes que são de suportar uma crítica de terceiros que poderão colocar a perder a vaidade de um ego inflado. Ou inflamado de tanto egocentrismo.

Não só os preços do ramo imobiliário estão a alimentar uma bolha, os egos de nossos semelhantes também crescem em proporções assustadoras. Não aceitam ser repreendidos, e ponto final. Podem estar trafegando na contramão, ultrapassando pela pista da direita, estacionando em cima da calçada que se sentem no direito de fazê-lo, e ai de quem resolver questioná-los. Pena máxima para os advogados da lei, e não para seus infratores. Pode isso?

E há, também, o extremo oposto: quem, titular do direito, ao exercitá-lo, usar requintes de má educação, como se a razão fosse um cheque em branco e assinado para que seu portador reclame abusivamente, esquecendo-se dos princípios elementares de convívio em sociedade.

Certo dia protagonizei uma dessas cenas no metrô, e minha reação civilizada, quem diria, é que provocou surpresa alheia. Nada como anos de terapia.

 Diante do movimento de saída de uma pessoa que estava a minha frente, sentada num dos bancos, enquanto eu estava em pé, me mexi em direção ao assento que estava disponível, quando então a pessoa, de maneira mais agressiva do que o necessário, me interpelou dizendo “estou levantando para aquele senhor sentar, não você”.

Embora o assento não fosse prioridade, me sensibilizei com a atitude generosa da moça, e, claro, mantive-me na mesma posição, desculpando-me, já que não tinha como, de onde eu estava, perceber a sua intenção. O curioso da situação é que o senhor não aceitou a gentileza, e a moça ficou atônita com a atitude dele e a minha, já que esperaria, em situações normais de temperatura e pressão, receber uma resposta atrevida ou na mesma medida da sua. Calei-me depois do episódio e permaneci de pé em frente a ela por mais algumas estações para seu desespero. O desconforto era visível, ela sabia que não precisava ter sido ríspida, e meu comportamento neutralizou totalmente o excesso do comportamento dela a ponto de constrangê-la.

Penso que precisamos de mais atitudes neutralizadoras como essa, caso contrário não faltará muito para que esta panela de pressão nível máximo que coabitamos estourar de vez. E aí, salve-se quem puder.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Instagreve


Estava eu em momento inspirador: atravessando a ponte Rio-Niterói, trânsito livre, aquela vista deslumbrante, no banco de trás ao lado da minha filha, ambas embasbacadas com aquela paisagem, quando me dou conta que minha mão se perde dentro das bolsa, retirando a atenção daquele momento, em busca da câmera do telefone. Não encontro na primeira tentativa, e insisto, já irritada, sem perceber que na janela, ao lado, a imagem está, pouco a pouco, saindo do meu ângulo de visão enquanto eu brigo com a minha bolsa que mais parece um buraco sem fundo. Quase derrotada, volto meu olhar novamente para a cena e penso “que se dane, quero aproveitar o momento”.

Não sou a única, certamente. Tenho reparado que a obsessão pela fotografia tem nos deixado menos presentes, como se fossemos uma versão retratada de nós mesmos, e só existíssemos, realmente, no mundo virtual. Opa, faz sentido isso?

Há tempos tenho reparado que pelos museus e pontos turísticos mundo afora as pessoas andam obcecadas com a melhor foto, o melhor ângulo, em prejuízo do momento em si, e, confesso, sou uma delas, mas em franca recuperação. Fotógrafos amadores e anônimos, somos um time.

A diversão mudou o foco, e agora além de viver temos que publicar o momento, e aguardar, ansiosos, pelos comentários que virão, sempre exultando nossas habilidades, nossa melhor pose, o melhor de nós. Nada de filtrar o que não merece ser visto, isso ainda guardamos a sete chaves.

E assim fotografamos cada passo da rotina, eternizando nosso ego, esse danado que nos vicia e nos seduz, mas pode, também, nos levar a ruína. Quem, de nós, nunca foi traído por ele?

Melhor guardarmos nossas câmeras, minha gente, e retirá-las da bolsa para momentos criteriosamente eleitos. No mais, façamos como eu que, aos quinze anos de idade, numa daquelas viagens cafonas de excursão adolescente pela Disney, quebrei minha máquina fotográfica no meio da viagem e fiquei absolutamente inconsolável no telefone com minha mãe, naquelas ligações relâmpagos, numa era pré-skype. Lembro que, naquela velocidade que éramos obrigadas a falar para evitar que a ligação telefônica ficasse mais cara do que a própria viagem (uma versão pré- anúncio do Ministério da Saúde ao final de alguns comerciais televisivos) minha mãe me disse: registra com a mente, filha, registra!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ai de mim


Eu falo sozinha.

Eu escrevo crônica e poesia e gosto de jardinagem.

Eu estudei italiano, ma non troppo.

Eu engravidei em Paris, num dia das bruxas. E pari uma leonina, nove meses depois.

Eu não sei desenhar, e nem gosto de dirigir. Só bicicleta, e com vento no rosto.

Eu aprendi a pintar minhas próprias unhas.

Eu gosto de comer besteira antes de dormir.

Eu nado dois mil metros por semana. Quase toda semana.

Eu rezo todos os dias indo para o trabalho.

Eu me dou bem com a solidão, mas gosto de gente também.

Ainda não decidi se prefiro praia ou montanha.

Viajar para mim é como um balão de oxigênio.

Eu suo demais.

Eu gosto de dias de chuva.

Eu conto minhas horas de sono.

Eu raramente esqueço um aniversário, ou um rosto conhecido.

Eu adoro bater palma. E amo dançar.

Eu tomo um gole de vinho, sozinha, quando a casa está escura. E uma garrafa, acompanhada, quando a casa está cheia.

Eu gosto do silêncio. Mas prefiro o dia a noite.

Eu gosto de pintura impressionista. E de música erudita.
 
Eu leio horóscopo e bula de remédio.

Eu choro em Óperas. E em filmes de amor.

Eu não gosto de andar de avião sozinha.

Eu acredito em Deus.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Luto

Nunca estamos prontos para a morte. Passamos a vida tentando entendê-la, tentando encontrar um sentido para o fim, ou buscando uma eternidade que nunca virá. A busca se resume a tentar prolongar nossa saúde, nosso convívio com quem amamos, numa vã tentativa de nos esconder de algo inexorável, que sempre nos alcança.

Fazemos prognósticos, estimativas, numa patética e desesperada insistência em controlar o imponderável.
  
A verdade é que não há quem esteja imune a este dia, e que, cedo ou tarde ele chegará para todos.
 
A racionalização do caos, daquilo que não controlamos, tão cara ao seu humano, nos empurra a analisar quando a morte pode ser esperada, até mesmo desejada ou quando ela seria uma abrupta interrupção, quase uma intromissão indesejada no caminhar do indivíduo.

 Normalmente, aos enfermos e sofridos, ela é benesse e alívio, mas aos jovens, aos que ainda produzem e tanto podem fazer pela sociedade, seria uma dura sentença, inesperada e irrecorrível. Talvez porque o sentimento de perda venha se somar, neste último caso, ao choque dos que não puderam se despedir. E a despedida, ainda que dolorosa, é, também, uma forma de nos conformarmos com o fim. Sem adeus, o fim é inaceitável, quase uma punição, a que todos estamos miseravelmente condenados.
 
Perder um amigo, a quem devotávamos empatia e admiração, no auge de uma vida plena, finalmente conquistada, com data marcada para a felicidade é provar deste fel.
 
Perder um amigo covardemente assassinado, no exercício de sua função recentemente conquistada, para a qual se preparou por toda a vida, é invadir a escuridão das dores incompreendidas. E lá permanecer, como uma noite profunda, esperando alguma luz se acender.
 
No dia em que o sol vier a brilhar saberemos que o fim na verdade é um meio e que esta estrada não foi interrompida como parece: o caminho é que mudou de direção.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sinais de Deus


Ontem eu briguei com Deus. Eu pergunto, ele não responde. Ele fala, mas eu não escuto, e os tais dos seus desígnios andam me enlouquecendo.

O auge de uma provação me parece ser este, em que questionamos até nossas convicções mais profundas, mas, numa esquizofrenia emocional resistimos a descartá-las morrendo de medo do desafio de encontrar novas para ocupar o lugar vazio.

E assim vamos caminhando, esperando um sinal divino que hesita em aparecer.

Já passei da fase de achar que algo sensacional vai trazer a resposta que busco, que verei luzinhas piscando ou que renas aparecerão trazendo a boa nova. Eu realmente adoraria que estas cenas biblicamente possíveis, mas realisticamente improváveis viessem a acontecer, mas não é por esses sinais que os sinos do divino tocam. E é esse o problema. Como reconhecê-los se não são efusivos, se não nos embalam de uma forma tão arrebatadora que mal conseguimos respirar?

Tenho, ainda, parte da dúvida, e parte da certeza. Acredito que a resposta venha quando sentirmos que sim, chegamos ao lugar certo, é mais uma sensação e um conforto do que um milagre. Mas, para quem, como eu, ainda espera por milagres e sininhos tilintando seria metaforicamente como um sopro de esperança, um afago do espírito santo ou de quem lhe vista as vestes. Essa é a metade da certeza.

A outra metade, que ainda me revira e me aprisiona, é a de que se saberemos reconhecer esta resposta quando ela chegar, e, mais, se ela não chegar, como mudaremos de direção? Apontar que estamos no caminho errado é uma resposta incompleta, como sair dali se não soubermos para onde ir?   

Pergunto, mas respondo. Apostando nesta mesma intuição, que nos faz sentir que estamos onde devemos estar, e indo mais além, ao deixarmos esta zona de conforto que a certeza nos propõe e assumir o risco de escolher uma direção e seguir naquele caminho, mesmo sem saber onde ele vai dar. Se tudo der errado, voltar atrás, ou, mesmo dando certo, mudar a rota se assim o quiser.

E é disso que a vida é feita, afinal, certeza e dúvida, voltar e partir, idas e vindas, até o dia da partida final.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Mudança para quem?

Sempre fui uma pessoa questionadora, mas confesso que ando carregando dúvidas demais, e de dúvida em dúvida, a crise se instalou. Pessoas inquietas como eu normalmente são curiosas e não passam um único dia sem buscar mais informação, e, em tempos de informação instantânea, estamos ferrados. Explico.
Recentemente estamos sendo soterrados por uma avalanche de informação pasteurizada que seria uma versão 5.0 daqueles livros de auto-ajuda de outrora: são sites, blogs, livros, programas de televisão monotemáticos: descubra uma versão melhor de você mesma, arrisque, vá ao encontro dos seus sonhos. No início se confundia com mais uma jogada de marketing para vender revistas femininas, mas tem agregado tantos seguidores que não tarda a criar sua própria igreja, não duvidem. 
Nunca mais passaremos incólumes por uma melancolia passageira, uma crise no trabalho ou um problema no relacionamento, somos desafiados a todo o momento a enxergar nestas dificuldades, ainda que momentâneas, um sinal para mudar de vida. Propostas não faltam: largar tudo e dar uma volta ao mundo, ir atrás de um sonho que nutríamos aos doze anos de idade, morar em um país estrangeiro para um período sabático e por aí vai.  Pergunto aos navegantes recém egressos: E mudou tudo mesmo?
Reconheço que não podemos viver conformados, e que é motivador ouvir alguém falar da sua coragem em mudar de vida, mas será que precisamos, todos, de tanto radicalismo para nos reinventarmos?  Tenho a sensação que no mundo de hoje só pode ser feliz quem vive ousadamente, na contramão das convenções sociais, e que aquele que “sobrevive” a base de rotina, relacionamentos duradouros e férias uma vez por ano seria a encarnação do homem acomodado, o típico Homer Simpson cuja diversão máxima se limita a assistir futebol e tomar cerveja com os amigos. Mas, olha, há quem seja muito feliz assim, e que, não, obrigado, não precise mudar de vida.
Para aqueles que, como eu, tem seus dias de dúvida, há consolo. A felicidade, no meu modo de ver, não tem relação direta com as escolhas que você faz, mas com a maneira que você lida com elas. Pensar que para tudo na vida temos escolha é de um reducionismo asfixiante. Nem todo mundo pode viver como quer, é óbvio, seja por este ou aquele motivo, e, ainda que haja solução para quase tudo na vida, muitas vezes é mais enriquecedor permanecer onde estamos do que mudarmos de lugar. Mudar a si mesmo, conseguir enxergar sua realidade de modo diferente é infinitamente mais desafiador e complexo do que simplesmente mandar tudo as favas e ir morar numa casinha de sapê no alto da montanha.
E tem mais. Há infinitas possibilidades de insatisfação pessoal, e praticamente todas elas se refletem no seu ambiente de trabalho ou nos seus relacionamentos, o que não significa que efetivamente você esteja infeliz no trabalho ou no seu casamento. Existem lacunas existenciais que são preenchidas somente se descobrirmos algo que nos faça feliz como pessoa, e isso é uma tarefa para quase uma vida inteira. Da maneira como a história é contada até a infelicidade, que é própria da natureza, e que é um sentimento inato no ser humano (até bebês recém nascidos ficam tristes) transforma-se num inimigo que deve ser sempre debelado. Luta inglória essa em que não há vencedor.
É bem verdade que sou daquelas que não acredita em mudanças radicais em curto espaço de tempo, e alguns anos de terapia me mostraram que às vezes andar rápido demais nos faz esquecer para onde estamos indo, mas, ainda assim, louvo qualquer forma de atitude, e aplaudo aqueles que têm coragem suficiente para sair da casca e buscar outros caminhos, pelo motivo que for, mas precisamos ir devagar, o tema é sensível demais para ser industrializado e vendido em pacotes iguais nas prateleiras da internet.

 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vários Tons de Vida

Não tenho muito o que dizer hoje não, mas quero falar. Falar é terapia, gasta calorias, e balança minhas cordas vocais que andam murchas. Andam murchas, nada, preciso aprender a redigir sem a obrigação de usar adjetivos, mas não consigo, faço sempre isso, o tempo todo, no papel e na vida. Qualificar é um vício, e faz mal a quem quer que prove deste mal porque nos acostuma a enxergar lados opostos, e o que é pior, para quem, como é, sofre de insatisfação aguda, a nos enxergar sempre no pior dos lados.
Adjetivar ensina a polarizar o mundo, a criar uma relação binária em tudo, a simplificar o que é complexo.
Não existe apenas preto, branco, e só de cinza aprendi que são 50 tons. Mas nosso exercício diário de distribuir predicados desconhece a profundidade e comete alguns desatinos ao determinar superficialmente quem é rico ou pobre, quem é feliz ou triste, bonito ou feio. Pior, e se eu não me enquadrar no conceito triple A, e aí, como acordo amanhã? Como encaro o outro? Como sobrevivo?
Preciso do temperamento de viver sem julgar, deixando para trás os rótulos que eu mesma me esforço em vestir e em distribuir para quem quiser recebê-los. A dificuldade em ser assim é que o mesmo dedo que aponta para o outro, se volta para si mesmo, e se não estivermos confortáveis com as respostas que ele nos trará gastaremos um esforço extra para sair daquela prateleira e nos enfileirar na seguinte e ali permanecer até alguém nos adjetivar de novo e nosso ego nos obrigar a mudar de lugar. E assim, mudamos, mudamos e mudamos. Até que, já exaustos, paramos onde nos colocaram e ficamos ali, anos e anos, olhando para as latinhas vizinhas e seus rótulos empoladinhos e nos perguntando: “Mas, essa sou eu? O que estou fazendo nesta prateleira? ”
O que posso dizer além de saia logo daí antes que seja tarde, e encontre seu lugar no mundo? Um lugar para onde queira voltar todos os dias, com um sorriso no rosto e os braços abertos pela saudade.

 

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Meu bem, meu mal

Sou duas, duas em uma. Mas quem me conhece, nem desconfia. Leva a anjinha e ganha uma diabinha de brinde. E as duas vivem as turras.
Logo de manhã instala-se o ringue. Começo o dia numa aurora boreal, e mal atravesso a porta de casa já escuto vozes daquela que me persegue. Ela me faz reclamar mentalmente da demora do vizinho pouco apressado que me faz aguardar no elevador por pura educação católica, me provoca tremores de profunda irritação pela conversa que sou obrigada a travar com desconhecidos familiares que cruzam meu caminho diariamente num horário em que metade dos meus músculos ainda está adormecida, e a outra é empurrada a trabalhar. Ela me faz amaldiçoar o maquinista do metrô que resolve acionar o trem assim que eu, afobada, chego a estação e o vejo partindo.
Retomo a direção dos pensamentos, e a anjinha se apresenta a função. “Bom dia”, digo a ela, mentalmente, “por onde a senhorita andou?”.
Respiro fundo e volto a pensar que o dia será produtivo, que preciso controlar meus pensamentos, que serei uma garota boazinha, que não me excederei durante o dia, mesmo que tenha razões para isso.
Ajudo uma senhorinha a subir a escada rolante, sorrio para quem me cumprimenta, e atendo uma ligação insistente no celular sem irritação. Assumo o controle e chego ao trabalho, segura e orgulhosa da minha alma elevada.
Em pouco tempo, a danadinha pisca para mim, e reina absoluta, quando preciso resolver mais problemas do que sou capaz de administrar, xingando tudo e todos que atravessaram meu caminho naquele dia.
Game over. Lá vou eu para terapia novamente.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Do Que Eu Sei Do Amor

Amor é palavra de rima fácil, é aconchego em dia de chuva, é suor e é abraço, dia de sol com mormaço. 
Quando vem do passado, traz de volta a infância. Lembrança do amor de outrora, de criança, aquele a quem Platão legou seu nome.
Amor de noiva, da espera em ser sua, de coração apertado, abafado nas pontas do véu cor de lua.
Amor de pai, herói das histórias sussurradas ao menino valente à beira da cama.
Amor de saudade, de quem espera por quem não veio ou por quem não volta nunca mais.
E aquele que dizem ser o maior do mundo, o amor que nasce no dia da luz. Amor que não tem fim, que não cabe em si, e que perene que é, sobrevive a dor, a vida, ao luto. Amor de Maria por Jesus.
É elo que nos une a quem nem conhecemos, é explosão de repentinas afinidades.
Amor é preocupação em teimosia que não nos abandona. Nem depois da maioridade.
É régua imaginária que ora limita ora expande o sentido da vida.
É mistura de gota de chuva com saliva na língua, e de mãos quentes e úmidas, entrelaçadas.
Amor é a esquina da vida, onde se vive em suspenso, aguardando o próximo passo.
É coração arrebatado por soluços de carícias sobre o ser amado.
É o oposto do ódio, esse danado pseudônimo do amor rejeitado.

Pequeno Conto da Menina que Tinha Tudo

Conhecia uma menina de vinte e poucos anos que precisava engolir o mundo. E não é que quase foi engolida por ele?
De tudo, tinha muito. Sua avidez era um claro sinal de insegurança.
Muitos amigos, um mundo de sonhos, tantos namorados, quantos sapatos. E sua ansiedade era alimentada cada vez que se excedia, que consumia, que engolia mais e mais. Nunca estava satisfeita. Nunca chegava a lugar nenhum. A procura a sufocava, mas estava mesmo era infeliz.
Nada é o bastante para quem não tem medida.
Até que um dia, sem que tivesse um único espaço livre em seus armários ou em seu coração se viu obrigada a doar, a esvaziar, a desinchar e mudar o rumo da sua vida. A vida lhe dizia: Retroceder ou paralisar, e ela escolheu recomeçar, com menos, mais leve, sabendo que assim seria mais fácil ir mais longe. O autocontrole era sua nova régua, e um novo horizonte se abria. Saboreava o suave gosto da satisfação e com ela se deliciava. Um sopro de felicidade anunciava novos ares, enfim.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Andar com Fé

Estudar em um colégio católico tem muitas utilidades. Noções de hierarquia e de disciplina são aprendidas quase com a mesma idade em que se aprende a andar e a falar. Desde cedo também se conhece um conceito muito válido para religiões e regimes políticos de pouca liberdade: o dogma. Longe de mim comparar as religiões aos sistemas absolutistas, mas, academicamente poder-se-ia dizer, ao menos, que bebem da mesma fonte. É a regra de poucas perguntas e muitos “amém”.
Não queira saber o porquê, o dogma é o contrário daquilo que os psicólogos ensinam que não devemos responder às crianças, é a ausência de motivação ou a ausência da intenção em responder a verdade, também conhecido como “Porque sim” ou “Porque não”.
Lembro-me que curiosa que sempre fui, questionava porque o Papa era infalível. Não tanto por não crer, mas mais por pura e infantil curiosidade, queria, na verdade, era saber como se chegava a este estado onírico de estar acima do erro. Nunca me responderam. Ou, ainda, por que razão não se podia casar e depois mudar de idéia e se separar. Por que não, o que havia de tão sagrado neste voto que não poderia ser desfeito? Se até os religiosos poderiam renunciar a batina.
Lembro-me ainda não entender o que existia na santa eucaristia que fazia com que fosse, mesmo depois de dois mil anos, parte do corpo de cristo. E isso sem dúvida me atormentava porque determinadas perguntas eram quase ofensivas dentro de um sistema educacional católico.
Não que eu acreditasse, aos 14 anos, que estaria ingerindo um pedaço original do corpo de Cristo – o que certamente me faria desistir da primeira comunhão- mas o que fazia com que aquele pedaço de biscoito sem gosto como que por mágica divina o representasse? E nisso consistia o tal do dogma, acreditar sem questionar, engolir sem mastigar. Aceitar, mesmo sem compreender.
Creio que passados longos anos, continuo professando minha fé, muito embora reconheça que para mentes ávidas por respostas como a minha, o dogma vez ou outra represente um obstáculo difícil de remover.
Entendo que a razão, per se, arruína qualquer forma de fé, até mesmo a fé mais pura, sem tradicionalismos ou rótulos, que é aquela fé em Deus, e não no ritualismo das religiões. Mas o homem é um ser pensante por natureza e dizer a ele que para seguir uma religião deverá deixar seu cérebro na geladeira é afastá-lo de sua essência, e, numa visão mais ampliada, do próprio Deus.
Vejo com simpatia, portanto, que os ventos estejam mudando na igreja Católica, e que um Papa intelectual, mas essencialmente humano seja o comandante deste navio.
Ainda respondo afirmativamente quando me perguntam se sou católica, sobretudo porque é a forma mais conhecida e familiar que tenho de enxergar a Deus. Memórias afetivas de uma vida de aprendizado em instituições religiosas me levaram a trilhar o caminho da verdade, do autoesforço que aguarda recompensa, de temer o mal e aquilo que prejudique o outro. Existem outros caminhos que levam ao mesmo destino, claro, mas este foi o que conheci.
A despeito de tudo que vemos, hoje, na mídia, existem facetas iluminadas do catolicismo, tantas que amarga saber que recentemente só se divulgue aquela do mal, da exploração sexual criminosa de crianças, da corrupção por debaixo da batina.
Guardo comigo recordações várias de professores religiosos que estimulavam a vida em comunidade, a atividade pastoral e a ajuda ao próximo. E, como não lembrar, de outros nem tão próximos da liturgia, mas que nos encorajavam a ser felizes, a ter uma vida peregrina e a viajar o mundo e, de uma, em especial, que em uma aula de religião confidenciou as meninas como reconhecer a sensação do orgasmo.  Isso entre paredes de um colégio de padres, altamente tradicional, no qual as alunas eram proibidas de usar vestes acima do limite do joelho, sendo que a rebelde aqui que vos fala chegou a ser mandada de volta para casa por um centímetro a mais de um recatado, porém nada sacro vestido floral.
Particularmente acredito que a fé seja um anteparo para as vicissitudes da vida, o pão e o vinho que nos conforta e, como eles gostam de dizer, que regozija nosso árduo caminho. Parece ter mais sentido para mim um mundo que tenha uma figura paterna soberana, porque toda forma de vida por nós conhecida nasce verdadeiramente de um outro ser, de um pai.
São esses os valores que pretendo passar adiante, junto com meu DNA, para meus filhos, por isso espero, sinceramente, que o novo Santo Papa aponte, de forma infalível, os caminhos para este rebanho de fiéis empoeirado , ávidos por uma transformação.

terça-feira, 5 de março de 2013

Pare. Pense. E Siga seu Coração

Sinal dos tempos. Na era da informação rápida, do acesso de internet banda larga, do transporte a jato, desaprendemos a esperar. Praticamos a impaciência diariamente, e este treino constante tem feito façanhas: somos ainda mais selvagens do que éramos originalmente, e momentos prosaicos como filas de banco, de supermercado ou de carros aguardando o sinal abrir têm se transformado em arenas públicas para todo tipo de selvageria.
Só quero tempo, não quero mais nada, dizem, sempre correndo, os membros desta manada. A versão homo sapiens pós moderna. “Gosto da vida na versão fast food, dispenso couvert e sobremesa. E por falar nisso, garçom, traz logo a conta?”
Se tudo é tão mais rápido, se a vida deve ser atravessada nesta pressa, para onde vai o tempo que sobra? E o que fazemos com ele?
Não se anime. Poucos sabem tirar proveito deste presente, poucos são os que sabem usar com sabedoria este “extratime” cupom. A maioria se intoxica com mais doses cavalares de ócio na internet, de tempo vazio, sem uso em próprio benefício. E nem estou aqui a falar do exercício da contemplação, do ócio produtivo, que é olhar para si mesmo, refletir, meditar, o dolce far niente tão bem vindo, e que é a força motriz da imaginação, da criatividade, do autoconhecimento, da tão aclamada paz interior.
O tempo que resta é um tempo perdido com consumismo exagerado, com amizades virtualizadas, com preocupações inúteis, com fofoca e preocupação com a vida alheia. Ou seja, desperdício de tempo. O tempo, nunca antes tão precioso, e tão mediocremente banalizado.
Até que um dia, quando nos damos conta do quanto já perdemos, e do que falta de vida para esvaziar de vez nossa ampuleta, acordamos sobressaltados, sensíveis que somos a fragilidade de nossa existência.
Prepare-se, esse dia chega, cedo ou tarde, e para todos, aí vemos o quão inútil é discutir por aquilo que não sabemos aproveitar, e quanto estamos desgraçadamente despreparados para seguir nesta marcha de tempo que se chama vida.
Meu dia chegou. Não pretendo mais duelar comigo mesma, tampouco amamentar ilusões ou devaneios ao invés de viver, simplesmente, para o que realmente vale a pena. Decidi tatuar na minha alma o sentido dos meus dias. Sim, é uma escolha, e é para todo o sempre. 
Desejo fortemente que chegue logo o seu dia e que te libertes de todo o vazio. Amém.
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Intervalos


Sento calmamente na minha poltrona favorita na sala silenciosa no início da madrugada. Recosto a cabeça e abro com um prazer calculado o livro que me aguarda na mesa ao lado. Paro uns instantes para apreciar a tranqüilidade a minha volta e quase esqueço de voltar. 
Ainda no início da leitura do segundo parágrafo, um choro agudo e cortante me retira abruptamente do meu devaneio. Levanto com a velocidade de um raio, saindo do status de descanso para o de movimento só como uma mãe é capaz de fazer, e me dirijo ao quartinho lilás ao lado do meu. Pego-a no colo, devolvo-lhe a chupeta, aninho-a em meu peito e o silêncio volta a reinar. Faço uma prece mental para que esse seja o último choro da noite. “Só por hoje, só por hoje”- me pego repetindo baixinho como uma exausta anônima. Preciso desesperadamente relaxar.
Retorno calmamente ao mundo em que eu estava. Por uns instantes fulgazes reencontro a paz e fujo para longe, onde nem meus pensamentos me alcançam mais. Subitamente o telefone vibra ao meu lado e me traz de volta a realidade. Atendo-o, assustada. Minha mãe, preocupada, pergunta, do outro lado, porque eu não liguei ao chegar em casa como prometido. “Aconteceu alguma coisa?” a ansiedade jorrando da voz. Bufo, como que repreendendo a mim mesma. Sequer me lembro da promessa feita provavelmente no meio do dia enquanto estava ocupada com todas as outras infinitas coisas que me assaltam diariamente. “Todos estão bem, mãe, fique tranqüila, vá dormir”.
Desligo o telefone, sigo até a cozinha e tomo um gole d´água antes de voltar ao livro que me aguarda paciente e praticamente intocado em cima da mesa.
Mal começo a folheá-lo, um vulto aparece na porta com o pijama vestido do avesso, fitando-me com os olhos sonolentos e pergunta, afetuoso: “Você não vem dormir?”
Suspiro. Desisto. E sigo-o na penumbra pelo corredor.

 

 

Sinais Vitais


Foi Carlinhos quem me abriu os olhos para a realidade. Carlos Drummond de Andrade, conhece? Em um famoso poema chamado “casa arrumada” ele diz que a casa da gente não é vitrine para estar sempre impecavelmente arrumada, que casa que tem amigos tem marca de copo na mesa, e arranhão no chão. E tem mesmo. Se for casa com criança pequena, então, aí tem parede riscada, brinquedo em cada canto, sofá manchado...E que seja de lápis de cera, ao invés de cigarro, penso eu.
Não é só a casa da gente que tem que ter vida, ser pulsante, carregar marcas. Todos nós temos as nossas cicatrizes, que andam rigorosamente escondidas, mas, depois do salvo conduto de Carlinhos, podem e devem ser alforriadas, são elas que nos dão charme e nos fazem ser quem somos. Precisamos, nós também, carregar nossa história na pele.
Eu já achava estranho, e agora me veio a certeza, mulheres que mais parecem que saíram de capas de revistas ou das passarelas não são reais, são mulheres vitrines, sem uma única sardinha de sol no nariz para contar história de algum verão inesquecível, ou uma ruguinha, que traz um charme experiente aos olhos ainda brilhantes de menina. Uma gordurinha aqui e acolá, que não comprometem o visual não deixam dúvida: essa aí gosta de reunir quem ama ao redor de uma boa mesa. Se os dentes já não são mais brancos como antigamente, não dá para enganar: essa outra adora um vinho e de preferência na companhia dos amigos. Se reclama muito da coluna, é batata: tem filho pequeno, que ela ainda carrega no colo...
Mulher de verdade é assim, veste seus defeitos como se fossem predicados. Drummond certamente concordaria comigo...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Réveillon

Todo ano saio em busca da reconstrução pessoal, de invadir os escombros da alma atrás de pedaços intactos de mim. Visto-os com dignidade, minha farda e meu escudo. E me despeço dos destroços, objetos inanimados que pesam sobre os ombros e que não me protegem mais, nem de mim mesma.
Calço minhas botas, apanho minha bagagem, e finjo sorrir. Preciso mostrar ânimo para os dias que virão. Quero acreditar que serão diferentes, que, como diz a música, tudo mudou.
A passos largos, observo o que deixei para trás, e num misto de alegria e solidão, vejo que estou sozinha, eu, minha farda, e minha trouxa de passado. Parece mais leve que a do ano passado, mas ao empunhá-la nas costas, vejo que ainda há resquícios daquela que nem existe mais. Paro novamente e abro sem hesitação: retiro tralhas e tralhas, jogo ao chão mais pedaços de mim que não uso mais, tantos que uma nova versão me encara no piso frio com um ar desolado. Não recuo. Sigo em frente e deixo-a esquecida atrás de mim. Agora sim, estou mais leve.
Tomo coragem e saio correndo, em frente, sem medo, e mergulho no ano que me espera. Cheia de sonhos, e um tanto otimista. Sibilo uma promessa de ano novo: sem trouxa nas costas no ano que vem.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os Sem Mandamentos

Já posso começar? Separe lápis e papel, e preste atenção, a lista é grande.
Não tome sol entre dez e quatro da tarde. Use protetor solar. Beba dois litros de água por dia. Faça exercícios pelo menos três vezes por semana. Evite frituras e refrigerantes. Coma verduras e legumes diariamente. Não coma carboidratos a noite e nem exagere muito no sal. Faça check up regularmente, sobretudo se tiver mais de quarenta anos. Não fume, claro que não. Não coma gordura trans, seja lá o que isso quer dizer. Açúcar, moderadamente. (Isso é possível?). Não gaste mais do que ganhe (alguma mulher no recinto?). Pague o total do cartão de crédito ou renegocie a dívida. Escute mais do que fale. Não dê opinião na vida alheia, a menos que seja pedido. Amamente seu filho até seis meses, exclusivamente no peito (e vire-se caso tenha que trabalhar antes disso!). Faça uma boa ação de vez em quando, claro. Respeite os mais velhos. Use camisinha.Tenha um plano de previdência privada e uma poupança no valor de seis meses do seu salário. Aprenda a falar fluentemente um idioma. Não cobice o que não lhe pertence. Coma de três em três horas. Escove os dentes depois refeições, e passe fio dental também. Não desperdice água nem energia. Use produtos ecologicamente corretos e seja um consumidor consciente. Além dos óbvios conselhos bíblicos: mão mate, não cometa adultério, não roube e blá, blá, blá.
Anotou direitinho? Agora, o melhor conselho de todos: divirta-se! É que a regra de ouro nesta vida é a seguinte: somos todos responsáveis pelos nossos atos. Então, tire metade da bobagem que escutamos desde que nascemos e que não fazemos e que até hoje, amigo, não matou ninguém e vá fundo que eu vou junto!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Gente Grande

Acordei com uma presença ilustre em minha vida. Sei que esteve presente ao meu lado durante os últimos 34 anos. Dias bons, outros ruins, em nenhum deles me abandonou. Vez ou outra acordava eriçado, em outros, comportado, me enchendo de orgulho. Mas no meio de tantos outros, passava despercebido. Hoje, especialmente hoje, se destacou no meio da multidão. Um fio, minúsculo e tímido, quase escondido entre os demais, mas eu o vi, e ele estava lá, me encarando pálido, coitado, assustado. Era um fio de cabelo branco! “Só isso?” Você pergunta. “Ora, era de se esperar, no meio dos trinta, filha na escola, dez anos de formada.” Eu sei, eu sei, mas tomei um choque, um susto danado, reconheço. Chegaste tão cedo, nem me preparei direito para este dia. Ai meu Deus, já?
Se não foi outro dia que estava no colegial, estudando madrugadas a dentro para passar na faculdade de direito. Outro dia que conheci meu marido numa quinta-feira, festa do dia dos namorados numa boate da moda que já não existe mais há dez anos! Boate? Ui! Há dez anos?Aff! Envelheci mesmo... “Lembro como se fosse hoje”, “quando eu era criança”, “na minha época”- festival de expressões vintage que já andam sapateando nos meus lábios recentemente. É, o diagnóstico se confirma: sou gente grande, sem sombra de dúvidas.
Ainda estou nova, bem sei, hoje podemos viver bem e com saúde até noventa anos ou mais. Mas a sensação de que se já cresceu, que o tempo não volta mais, e que uma parte da sua vida faz parte da sua memória é algo perturbador, e que nos faz refletir sobre aonde se quer chegar. E ainda falta um bocado de caminho, que alívio! Meus planos vão se renovando, mas a vontade de fazer as coisas acontecerem continua a mesma. Ainda me reconheço, sou a mesma menina devoradora de livros e de sorvetes, que adora dançar, que escreve e fala compulsivamente. Sou eu, eu mesma, aquela da foto, à direita da professora, mas, graças, sem aquele cabelo pavoroso de vinte anos atrás. O meu sorriso continua o mesmo, pode conferir. Um pouco mais amarelado, com umas ruguinhas ao redor da boca, mas igualzinho.
Ao invés de olhar para trás, olho para baixo e me vejo ali, naquela criaturinha faladeira, agitada e comilona de dois anos de idade, meu pedacinho de mim, a continuação da estória que não para por aqui. Então o fio branco, solitário, desaparece, e se torna apenas um registro burocrático do tempo, totalmente inofensivo. Hei, Paul, ainda faltam 30 anos para eu fazer 64, para eu perder os fios que hoje só mudaram de cor. Somos jovens, e ainda temos todo o tempo do mundo, afinal.

 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sem Receita

Às vezes precisamos decodificar e adaptar as mensagens que recebemos por todos os lados ao invés de simplesmente introjetá-las. Moderação é que nem Bombril: serve para tudo nesta vida. Já basta engolir esses outdoors de autoajuda que a mídia vomita nos telespectadores nesta época do ano, vamos pensar, cada um, com sua própria cabeça, afinal, é para isso que Deus deu uma a cada um e não uma coletiva, de uso comum.
Sou uma dessas pessoas que sempre ouviu e cumpriu a máxima de “correr atrás do que se quer”. Empenho sempre foi meu sobrenome. No entanto, algumas vezes as coisas aconteciam, e outras tantas, não. Ficava intrigada com as pessoas que nada faziam e eram agraciadas com surpresas inesperadas. Meu espanto era tamanho que foi alvo de sessões seguidas de terapia. Sentia-me abandonada pela sorte, logo eu que tanto fiz para merecê-la!
Pensando sobre o assunto, consegui perceber uma linha comum de comportamento nesses sortudos invejados: eles não carregavam o peso da ansiedade, faziam a sua parte e, pasmem, sabiam esperar. E esperar não o relógio, mas o tempo das coisas, que é diferente do tempo do mundo, empacotadinho em horas, dias, anos. Enquanto o dia esperado não vinha, viviam suas vidinhas sem que o desejo se tornasse obsessão. Simples assim, como uma manhã de domingo. A diferença entre nós, o público fiel dos ansiolíticos, e eles, os que vinham de fábrica com uma produção interna de corta-ansiedade, era que eles não deixavam a vida em suspenso enquanto seus anseios não viravam realidade. Não diziam para si mesmos: “quando eu mudar de casa, faço isso”, ou “quando encontrar um  marido, faço aquilo”. Eles se viravam com o que tinham, e viviam felizes sabendo que um dia algo viria para modificar suas vidas. Não ficavam desenhando palitinhos na parede esperando o dia que seriam livres, já eram livres enquanto esperavam por este dia. Livres deste grande mal: a ansiedade.
Mas, vem cá, como é possível viver enquanto se espera? Eu diria que, apesar dos nossos maiores esforços, não somos nós que mandamos em nossas vidas. Contribuímos muito para o que virá, mas não há nada que possamos fazer que nos assegure o que iremos receber e quando. Esse é um dos maiores medos que temos que enfrentar, afinal, o de que nem tudo pode dar certo em que pese nosso sangue, suor e lágrimas. Não sei se essa constatação vai me trazer mais ou menos serenidade, ou se, de alguma forma, vai esvaziar meu ânimo para voltar à luta. Quem sabe me ajude a sintonizar a dosimetria certa de empenho e de esforço a verter em meus projetos, no que sempre exagerei na conta sem ver muito resultado. Ou, e prefiro este final para a história, que seja o início de uma revelação que me foi dada pela metade. Não sei. Só sei que devo me preocupar menos, e aprender a deixar um pouco mais frouxa esta rédea na qual eu seguro a minha vida. E sair galopando sem destino por aí vez ou outra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

On the Rocks

Tenho ressaca da vida de vez em quando, sabe ressaca, gosto amargo na boca, vontade de colocar tudo para fora, ânsia, cansaço, vontade de nada.
Normalmente é efeito colateral dos excessos que cometemos diariamente: excesso de gente, de energia, de trabalho, de palavras. E então eu me recolho, quieta e contemplativa, esperando que tudo volte ao normal, que o rio deságüe no mar, que o cravo reencontre a rosa, que o mundo volte a girar. Talvez seja esta nossa inesgotável capacidade humana de acreditar, talvez seja, apenas, o final de um ciclo, ou a vontade soberana do criador. Mas este dia sempre acaba chegando, e eu me animo: mais um pilequinho, nova ressaca, e no final tudo volta ao normal novamente.
Mas sabe, ando mais seletiva, ultimamente. E esses porres de vida andam sendo mais esporádicos, embora mais prolongados. A resistência do organismo vai endurecendo, e mais e mais vezes ele reclama. Preciso obedecê-lo, dispensar quem me deixa enauseada, quem fala sem dizer nada, quem cansa meus ouvidos e me faz revirar os olhos, quem me dá uma surra de futilidade. Com esses, chega, não divido mais a mesa e não brindo mais nem com champagne.  Desta gente, juro, e ajoelho depois, não beberei jamais.
Quero novas fontes de vida, eu vou é procurar companhia em outros bares, com quem saiba dividir mais do que papo de bêbado, e que me acompanhe por outros caminhos. Com ou sem álcool, sem ou com gelo, mas que tenha coragem e seja autêntico.
Tenho ressaca é de gente falsificada.